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“Quero encontrar um fio de cabelo da minha filha, enterrar ela e finalizar esse ciclo da minha vida”

“Quero encontrar um fio de cabelo da minha filha, enterrar ela e finalizar esse ciclo da minha vida”

07/02/2022 às 12h37 Atualizada em 06/09/2023 às 15h17
Por: Redação
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“Quero encontrar um fio de cabelo da minha filha, enterrar ela e finalizar esse ciclo da minha vida”

O caso do desaparecimento de uma jovem na cidade de Valparaíso de Goiás (GO), entorno de Brasília (DF), completa cinco anos em fevereiro de 2022. Thayná Ferreira Alves, até então com 21 anos, saiu de casa em 16 de fevereiro de 2017 no carro de Valdezar Cordeiro de Matos, seu ex-padrasto, para que supostamente a deixasse em um ponto de ônibus. Só qu desde então, Thayná nunca mais foi vista e o caso segue sem solução até hoje. “Onde está Thayná?” é a pergunta feita pela mãe da jovem, a técnica em enfermagem Regina Jussara Ferreira Lacerda. Em busca dessa resposta, Jussara usa uma pá a procurado corpo de sua filha dentro de uma mata da cidade. “Tenho certeza que se fosse ao contrário, minha filha estaria me procurando até hoje”, relata. Um perfil no Instagram @jussaralacerdathayna21 foi criado para ajudar na divulgação do caso. De acordo com a Polícia Civil de Goiás, o principal suspeito é o ex-padrasto Valdezar. Conhecido na região de Valparaíso de Goiás como “bigode”, era um homem respeitado e lembrado por toda a população como um homem íntegro e sério. Quando a notícia de que ele seria o principal suspeito, “ninguém acreditava nisso”, conta Jussara. Eles tinham um relacionamento há 17 anos e “nunca houve nada que suspeitasse dele”, relata. A mãe da Thayná, Jussara Lacerda, é nossa entrevistada desta segunda-feira (7) e se emociona ao ver o quarto de sua filha do “jeito que estava no dia que desapareceu. Não consigo mexer em nada no quarto dela para não parecer que um ciclo se encerrou. Só quero justiça, que ele seja preso e que eu encontre a minha filha”.  

Segundo as investigações, Valdezar fez uma ligação para a senhora no dia do desaparecimento. O que ele te disse?

Disse que iria comprar um terreno próximo dessa região. Mas o que ele estaria fazendo dentro de uma mata completamente fechada? Lá é um local de desova de corpos e de difícil acesso. Dava medo de ir lá.

A senhora sai com uma pá em busca do corpo de sua filha em uma mata de Valparaíso de Goiás (GO). Qual o principal desejo da senhora atualmente?

Eu peço justiça pela minha filha, que ele seja preso novamente e que eu encontre o corpo da minha filha. Na verdade, entre ele ser preso e eu encontrar o corpo, hoje o que eu mais desejo é encontra o corpo dela. Quero fechar esse ciclo, fazer o enterro da minha filha, respirar e falar “eu consegui”. Quando eu saio com a pá para poder cavar, encontrar alguma coisa, é porque eu preciso fazer algo todos os dias, às vezes acordo e pergunto, o que vou fazer? E falo, vou cavar.

Em depoimento à polícia, Valdezar disse que Thayná teria riscado o seu carro e o teria denunciado à polícia que tinha uma arma. Como foi isso?

Thayná realmente quebrou completamente o carro dele no dia da festa do meu aniversário em dezembro de 2016, dois meses antes dela desaparecer. Nesse mesmo dia, que era para ser comemorativo, ele virou a mesa do bolo e ela foi em cima dele, pegou uma faca e desceu para a garagem do prédio. Quando tudo isso aconteceu ele foi preso, porque usávamos uma arma dentro do carro por causa da fazenda que tínhamos. Ele ficou uma noite preso e no dia seguinte foi solto. Resolveu fazer uma viagem sozinho e quando ele retorna para casa, pediu perdão para ela (Thayná), pediu desculpas e chamou a gente para viajar e quebrar o clima da confusão. Viajamos, fomos à praia e tudo estava normal, não percebi nada e logo depois quando retornamos, passaram-se 15 dias e Thayná desapareceu.

Como a senhora vê a notícia de que Valdezar está em liberdade atualmente e aguardando julgamento?

Eu enxergo como injustiça mesmo, o lugar dele tinha que ser na cadeia, pois não tinha que ter saído nem por conta da Covid-19. Teria que ter separado ele em uma cela, mas infelizmente o dinheiro corrompe as pessoas e muitas pessoas foram corrompidas com o dinheiro. Hoje eu digo que, menos o delegado Rafael Abrão e outros que trabalham dentro da Polícia Civil, muitas pessoas se corromperam por causa do dinheiro. A perícia, para vocês terem uma ideia, eu fui pegar os laudos e deu reação positiva e outros como inclusivos. Veio a pandemia depois, o cara é idoso, tem dinheiro e está solto e a minha filha continua desaparecida. Vou realmente correr atrás, que saia logo essa pronúncia, que ele seja pronunciado, julgado e que vá para júri popular. Essa é a única maneira que vou dizer que fiz alguma coisa.

Ele sempre nega participação?

Ele nega o crime, confessa que deixou ela na parada de ônibus e que minutos depois ela voltou em frente ao prédio dele, a uma distância de 500 metros na BR 040. No depoimento, ele disse que consegue gritar para ela pegar a mala e a bolsa dela e que estava com roupas para doação. Mas ela não tinha roupa para doar. Thayná só queria andar na moda, as roupas que ela tinha sempre eram doadas para minha sobrinha, que é filha da minha irmã, ese realmente tivesse roupa para doar, eu ia saber. Uma testemunha falou que estava bebendo com ele em uma fazenda, inclusive ex-funcionários, e que ele falou que tinha matado a Thayná porque ela não o quis. Então existia um amor não correspondido ou um abuso de uma criança ou de uma adolescente. Eu sempre falo para as mães, para as pessoas que eu conheço, para ter um olhar bem atento. Ninguém vem escrito na testa que eu sou bom, eu sou direito, tenho caráter e atitude, porque ele era um cara muito querido e conhecido aqui como bigode, respeitado inclusive em qualquer lugar que vocês olharem. Isso foi um choque para sociedade de Valparaíso de Goiás. Ele chegava nos lugares e as pessoas cuspiam nele, hoje ele não é mais bem visto em lugar nenhum. Graças a Deus de uma certa forma consegui mostrar para a sociedade que, eu como mãe da Thayná, vou atrás da justiça. Quantas mães hoje têm medo de denunciar por que o cara tem dinheiro? Muitas se calam, não conversam, não sabem falar, não sabe se pronunciar. Nem todo mundo tem essa desenvoltura que eu tenho. Eu não tive esse medo e nem tenho medo nenhum. Ninguém conhece a luta que eu tenho e que quero passar para as mães, para ter esse cuidado, um olhar mais atento aos seus filhos dentro de casa e nas redes sociais. Tudo está muito perigoso, há muitos pedófilos e eles mudam suas imagens como se fosse uma criança falando com outra criança, e às vezes essa criança, o adolescente se engana, saem de casa, mente para a mãe e vai encontrar o pedófilo e acaba ocorrendo o que a gente sabe.

Alguma vez Thayná se queixou das atitudes de Valdezar para a senhora?

Depois de muito tempo fiquei sabendo que ele a perseguia na faculdade. Em uma gravação que eu tive acesso do Facebook dela, ouvi minha filha gritando com uma amiga dela: “Vamos, entra no carro que o Valdezar está me seguindo”. Então de fato é verdade e não é só uma fala, eu escutei o áudio e tem muitas outras coisas.

E Valdezar alguma vez se queixou das atitudes da Thayná para a senhora?

Um dia antes dela desaparecer, ela foi para a faculdade à noite e eu fui trabalhar no hospital. Nesse dia ele implantou uma maconha lá no guarda-roupa dela. Quando eu voltei, ele me chamou e disse “vem cá ver o que a sua filha está fazendo”. Não acreditei, olhei pra ele e falei, “isso aí foi você”. Eu sempre fui de dar muito puxão na orelha mesmo, de fazer barraco. Falei “então deixa isso aqui, pois quando ela chegar eu vou fazê-la engolir com saco e tudo”. Nisso ele recuou e disse para eu não fazer isso. Pra mim isso já era uma armadilha para me confundir depois. Por esse motivo, eu bati firme no delegado de Polícia Rafael Abrão para investigar a vida pessoal da Thayná fora de casa. Eu mesma fui atrás dos traficantes de Valparaíso de Goiás, fui nas bocas de fumo, mostrava a foto dela e perguntava se alguém a conhecia.Todos falavam que não e que essa menina não se envolvia com droga. Se a polícia fala (doutor Rafael disse que essa hipótese foi descartada por todas as investigações), se os amigos falam, se os traficantes disseram que não, eu vou dizer que sim? Cheguei a conclusão que foi ele sim o autor do crime.

A senhora ainda tem esperança de encontrar sua filha com vida?

Eu estava conversando dia desses com uma senhora que me disse que sentia a Thayná viva. Será que ele (Valdezar) ficaria dois anos preso e ela amarrada em um lugar? Só se for amarrada, porque se for por livre e espontânea vontade, em lugar nenhum desse mundo ela está. A investigação completa da polícia já disse que ela não está viva, não existe nenhuma chance e nem tem possibilidade dela ter pegado um voo para algum lugar.

A senhora se arrepende de algo? Faria algo diferente hoje?

Infelizmente no começo eu fiz tanta coisa que era para ter sido diferente, por exemplo, eu fiquei com ele quase trinta dias dentro de casa depois do sumiço da Thayná. Eu poderia ter colocado um detetive ao invés de gastar dinheiro todo dia abastecendo dez carros de uma só vez para procurar a Thayná durante a madrugada e ele em casa só me observando. Poderia também ter contratado um advogado criminal no começo, eu pensei que eu não precisava, porque eu era a mãe da vítima. Não tive nenhuma orientação no começo de uma pessoa para me ajudar e me orientar nessa parte. Outra coisa doida que ocorreu foi o sumiço de uma Thayná Ferreira em Brasília, na época. A minha é Thayná Ferreira Alves e a de lá é Thayná Ferreira Lopes. Estava com ele em casa e à noite o IML de Brasília me liga e pergunta, “Jussara, você é a mãe da Thayná Ferreira”? Respondi que sim e eles me disseram que o corpo dela tinha dado entrada lá. Naquele momento eu tirei Valdezar do foco, olhei pra ele e disse“encontraram a Thayná”. Sabe o que ele falou pra mim? “Nem levante daí, não é aThayná não, você vai só gastar combustível”. Nem da cama ele levantou. Aí eu fiquei em pânico, mesmo assim eu fui até o IML e realmente não era ela mesmo. Já passei por várias situações, de pessoas que enganando, que me ligavam falando que as coisas dela estavam enterradas no Corumbá. Tudo isso é muito desumano para uma mãe. Hoje são poucos os amigos dela que me procuram e se a minha filha aparecer, eu ia falar pra ela realmente quem eram as suas amigas. Hoje eu só peço a Deus para Ele mostrar, usar alguém ou que aconteça alguma coisa e que Valdezar confessasse.

A senhora faz acompanhamento com psicólogo?

Não faço acompanhamento com psicólogo, meu acompanhamento é só com Deus e eu mesma. Eu olho pra mim e falo, “não vou cair”.Se fosse ao contrário, a minha filha estaria de pé também e estaria lutando. Se fosse eu que tivesse desaparecida, a mesma força que eu estou tendo, certeza que ela estaria tendo também. Com certeza vai chegar a realidade de um dia eu encontrar ela, de falar, “meu Deus, realmente acabou”. Meu ex-marido esperava que eu fosse ficar doida no Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico (HPAP),lá em Taguatinga (DF).

Thayná possui um irmão mais novo que ela. Como ele está hoje?

Nos dois primeiros anos ele ficava muito dentro do quarto e ele gostava de tocar violão pra ela, inclusive até no dia anterior ao desaparecimento. Os dois eram muito unidos. Depois de um tempo ele arrumou uma namorada e posso até dizer que ela tampou um pouco daquele buraco. Ele é um menino muito bom e responsável. Agora é eu e ele, lutando com o nosso objetivo de achar Thayná, pelo menos um fio de cabelo.

Nos conte sobre a Lei Thayná Ferreira, sancionada no ano passado na Câmara de Vereadores de Valparaíso.

Aqui em Valparaíso de Goiás existe uma lei chamada Thayná Ferreira (Lei 119-2021- Dispõe sobre a publicação de fotografia e informações de pessoas desaparecidas nos sítios eletrônicos oficiais do município de Valparaíso de Goiás - Lei Thayná Ferreira - criada pelo vereador Jorge Recife (PDT) e aprovada por unanimidade em 17/09/2021).É uma lei que traz para Valparaíso a possibilidade da gente ter a certeza de que as pessoas realmente desapareceram. No portal da prefeitura qualquer pessoa consegue ter acesso a essas informações e a Polícia Civil também ajuda.

No dia 16 de fevereiro de 2022 completa 5 anos do desaparecimento da sua filha Thayná. O que a senhora gostaria de deixar como mensagem final?

Primeiro eu quero agradecer a vocês do JORNAL A ENTREVISTA por me procurarem e se importarem depois de quase cinco anos com o desaparecimento da Thayná. Eu quero dizer que o apoio da mídia é muito importante pra mim, assim como o apoio de toda a sociedade de Valparaíso de Goiás, pois sem a sociedade, sem vocês, eu não vou a lugar nenhum. Não adianta eu ir lá na frente do fórum sozinha com uma faixa pedindo justiça pela Thayná, pois nada vai acontecer. Mas eu tenho certeza que se uma equipe de repórter, os amigos dela e a sociedade de Valparaíso de Goiás se importarem que a Thayná não foi encontrada, que o principal suspeito tem que voltar para a cadeia porque é lá que ele merece ficar, com toda certeza a justiça vai dar um alongamento mais rápido a esse caso. É um dever meu de mãe pelo menos encontrar um fio de cabelo da minha filha e estar enterrando ela. Eu quero finalizar esse ciclo da minha vida. É uma angústia muito grande, você não vive. Eu busco a respiração pra poder viver.

Nota final

A Polícia Civil de Goiás concluiu que Valdezar matou e ocultou o corpo da enteada. O ex-padrasto chegou a ser preso duas vezes,mas atualmente está em liberdade e ainda não foi julgado. Para a polícia, ele sempre negou participação no caso. A Polícia encontrou com Valdezar roupas e a bainha de um facão com sangue no dia do desaparecimento, mas não foi comprovado que seria da Thayná.

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