A agressão a uma professora da rede municipal de ensino de Valparaíso de Goiás traz à tona novamente o debate e a necessidade de medidas mais severas para se evitar novos episódios de violência dentro de escolas, ambientes estes que deveriam ser apenas de educação.
Na última sexta-feira (22 de agosto), uma estudante de 14 anos se desentendeu com uma professora dentro da sala de aula do 6º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Monteiro Lobato, no bairro Valparaizo II, e portando uma faca, deferiu pelo menos 5 golpes contra a docente, atingindo as costas e os braços, e quase chegando ao pulmão, segundo exames médicos. A cena foi presenciada por todos os alunos, que ficaram em estado de choque. A vítima foi socorrida por outros professores e levada ao Hospital Regional de Santa Maria, no DF. Ela recebeu alta pouco tempo depois do episódio, se recupera dos ferimentos e do trauma.
Em recente entrevista a um portal de notícias da região, a professora diz que tinha uma boa relação com a adolescente, sentando ao seu lado sempre e a ajudando com os trabalhos e diz não entender o motivo do ataque. “O preço que eu paguei foi por ser cuidadosa e querer o melhor. Essa é a maior dor que eu sinto”, disse ao G1.
Após o ataque, segundo testemunhas, a jovem teria ficado em estado de choque, precisou ser atendida pelo SAMU, antes de ser levada para a delegacia. Lá, durante a averiguação, as equipes da Polícia Militar encontraram um caderno com ameaças de morte à professora. A defesa e os pais ou responsáveis não foram localizados para explicar a situação.
Crise na segurança de escolas
O problema em escolas públicas municipais de Valparaíso de Goiás (GO) expõe um agravante da falta de segurança dentro dos ambientes escolares. Desde meados de 2024, a guarda municipal, por exemplo, não atua mais na cidade, por uma determinação da Justiça. Esses agentes faziam segurança em portas de escolas, instituições públicas e de alguns prédios comerciais. A ausência da força de segurança deixou uma brecha para alunos, que entram nas unidades de ensino sem qualquer tipo de revista, algumas vezes portando armas brancas, drogas e objetos ilícitos.
A crise se estende atribuindo ainda ao problema da falta de apoio psicológico, desvalorização da profissão e discursos de ódio disseminados nas redes sociais por parte de adolescentes.
Esse episódio da facada foi caracterizado como traumático por todos os presentes na sala de aula, famílias dos alunos e por professores da rede pública de ensino que exigem soluções imediatas.
O Sindicato dos Servidores Públicos e Empresas Públicas Municipais de Valparaíso de Goiás (Sindsepem/Val) manifestou repúdio ao caso e disse ter escancarado ainda mais a grave crise que atravessa a educação pública local.
“O caso expõe o distanciamento do poder público das reais condições das escolas municipais. Ausência de políticas de valorização profissional, estrutura precária, falta de formação continuada, salários defasados e isolamento pedagógico são sintomas de uma rede que agoniza sem apoio institucional. Muitas escolas de Valparaíso operam em condições insalubres, com ventilação inadequada, ausência de segurança, falta de manutenção e equipamentos básicos. São ambientes hostis à aprendizagem e à convivência, que reforçam o estresse e a tensão entre todos os atores da comunidade escolar”, relatou o sindicato, que sugere respostas urgentes.
“A curto prazo, é preciso garantir acolhimento psicológico imediato às vítimas, suporte às equipes escolares e segurança reforçada, sem recorrer à militarização. A médio prazo, devem ser restabelecidos os Conselhos Escolares, convocadas assembleias gerais com a comunidade e implantado um plano de valorização dos profissionais com participação ativa da categoria. A longo prazo, é imprescindível a reformulação estrutural das unidades escolares e a consolidação de uma política educacional com base na democracia, no respeito mútuo e na justiça social”.
A prefeitura de Valparaíso de Goiás divulgou uma nota de esclarecimento em que também repudia veementemente qualquer ato de violência e reforça que a educação deve ser um espaço de respeito, diálogo e convivência pacífica.
A nota diz que o caso vem sendo acompanhado pelo Conselho Tutelar, Polícia Militar, Secretaria de Educação e profissionais da área de psicologia.
“A Prefeitura ainda reforça que, desde o início da semana, a direção da escola já havia registrado formalmente ocorrências de indisciplina envolvendo a estudante, inclusive com convocações aos pais, devidamente lavradas em ata. No momento do ocorrido, a aluna utilizou um objeto trazido de fora do ambiente escolar para atacar a educadora. Durante o mês de agosto, ações educativas e preventivas voltadas ao combate à violência no ambiente escolar vêm sendo realizadas nas escolas por meio da Secretaria Municipal de Educação. Ontem (21/08), a Escola Monteiro Lobato recebeu palestra da policial civil Eufrásia, direcionada aos estudantes, como parte dessa programação”.
Por fim, o governo local determinou que as secretarias de Educação, de Saúde e de Assistência Social atuem de forma conjunta, criando mecanismos para que casos como este não se repitam.